Seminário em celebração ao Dia Internacional da Mulher traz rico debate sobre o papel da mulher na sociedade, na administração pública e na política

Na manhã de 8 de março, data em que é comemorado o Dia Internacional da Mulher, o Sindifisco Nacional promoveu um rico seminário com o tema “Lugar de mulher é onde ela quiser”. Na ocasião, foi discutido o papel da mulher na administração pública, na política e no sindicato. Os direitos das mulheres, a presença delas em cargos de chefia nos três poderes, a importância de se ter mais mulheres negras nesses espaços de poder, o cotidiano profissional interligado à vida particular e as dificuldades para se garantir cargos de chefia foram pontos centrais do debate.  

A mesa de abertura teve participação da representação feminina da diretoria da entidade. Integraram esse primeiro momento as Auditoras-Fiscais Natália Nobre (2ª vice-presidente), Nory Celeste (diretora de Defesa Profissional), Patrícia Fiore (diretora-adjunta de Assuntos Parlamentares), Maria de Lourdes Carvalho (diretora de Defesa da Justiça Fiscal e da Seguridade Social, de Políticas Sociais e Assuntos Especiais) e Dejanira Freitas Braga (diretora suplente). O presidente do Sindifisco Nacional, Auditor-Fiscal Isac Falcão, fez uma breve saudação de forma remota.   

A vice-presidente Natália Nobre abriu o evento destacando a importância do debate. “A mulher pode ser o que quiser, mas nem sempre foi assim. Essa é uma conquista que temos que celebrar todos os anos. É uma luta que já evoluiu bastante, mas que precisa ser continuada”, disse.  

Isac Falcão cumprimentou todas as mulheres presentes, sobretudo as Auditoras-Fiscais, pela luta e pelos espaços conquistados até hoje. “A gente sabe que é uma caminhada difícil, uma caminhada de muita luta. Essa data de hoje guarda uma relação com a luta sindical, com a luta operária das mulheres. No nosso ambiente de trabalho, no sindicato, a luta deve se fazer sempre presente”.  

Nory Celeste observou que os direitos das mulheres são muito recentes e são os primeiros a serem retirados em momentos de crise. “Nossa organização é fundamental para dar conta dessa realidade”. Ela destacou que, para a categoria, a data marca também a instalação da Comissão de Mulheres composta por Auditoras-Fiscais. “Nós estamos aqui para que nossa comissão se instale, para discutirmos que lugar de mulher é onde ela quiser, e vamos construir isso. Vamos discutir a mulher na administração pública, na política, no sindicato e onde mais ela queira”, acrescentou.  

A diretora Patrícia Fiore demonstrou satisfação pela grande maioria de mulheres participando do seminário. “Vocês são como flores embelezando nosso dia hoje”. Compartilhou, ainda, uma frase da escritora Simone de Beauvoir para celebrar o momento: “Que nada nos defina, que nada nos sujeite, que a liberdade seja nossa própria substância”. “Essa frase transmite o sentimento de todas nós, unidas”, complementou.  

A importância da representatividade da mulher nos três poderes foi ressaltada pela diretora Maria de Lourdes. “Nós precisamos, como Poder Executivo, Legislativo e Judiciário, dar uma sacudida na pirâmide de ocupação de cargos de relevância. Vamos voar mais alto e chegar ao topo sem discriminação de sexo!”.  

Por fim, a diretora Dejanira destacou a necessidade de discussão sobre a baixa representatividade de mulheres negras nos cargos de liderança. “É uma questão que precisamos discutir muito, faz parte da nossa luta. Por que em um ambiente como esse existem poucas mulheres negras? É só olharmos para trás, parece que acabou a escravidão, mas sabemos que ela continua. Nós sabemos que tem muita mulher sofrendo, e a maioria é negra”.   

A mulher na administração pública e na política

A mesa do primeiro painel foi composta por mulheres em cargos de chefia na Receita Federal e no Ministério da Fazenda, além da deputada federal Erika Kokay (PT-DF). O protagonismo da mulher como mãe, filha, esposa, trabalhadora e liderança enriqueceu o debate com emoção e momentos de reflexão quanto ao papel da mulher na sociedade.  

A história da Auditora-Fiscal Cláudia Regina Leão, subsecretária de Administração Aduaneira da Receita Federal, mostrou como é difícil, mas não impossível, agarrar oportunidades, mesmo com as dificuldades existentes. A Auditora está em Brasília há três meses, sua família vive em Curitiba e ela vai somente aos finais de semana para casa. “Fico pensando: será que vale a pena sacrificar a vida pessoal? Vale sim. Quando surge uma oportunidade, quando o histórico é levado em consideração, vale a pena. É uma oportunidade também para servir de exemplo para outras servidoras. Estamos colaborando para o desenvolvimento do nosso país, é um momento que temos que aproveitar”, disse.  

Subsecretária de fiscalização na Receita Federal, a Auditora-Fiscal Andrea Costa Chaves concorda com Cláudia Leão. Ela também acha que estar em posição de liderança pode influenciar e fazer com que mais mulheres conquistem esse espaço. E apontou para a ausência de mulheres negras na liderança. “É importante normalizar a presença da mulher nas tomadas de decisão. Quero retomar a fala da Dejanira, para citar algo da Djamila Ribeiro (filósofa feminista negra), que diz que a causa da mulher negra não é igual à da mulher branca. A mulher branca lutou para trabalhar; a mulher negra, não. Para ela, o trabalho sempre esteve ali”, pontuou. 

Emocionada, a subsecretária de Desenvolvimento Econômico Sustentável do Ministério da Fazenda, Cristina Frois de Borja Reis, contou sua história. Mãe solo de dois filhos, ela precisou se mudar rapidamente com eles, de São Paulo para Brasília. “Vamos falando de assuntos profundos, ao mesmo tempo que trazemos nossas experiências. A verdade é que nossas vivências pessoal e profissional são indissociáveis. Mas quando recebi o convite para vir para Brasília, não titubeei”.   

Andrea falou, ainda, do Plano de Transformação Ecológica do Ministério da Fazenda, que tem como objetivo gerar emprego, renda, justiça ambiental e climática, e reduzir as desigualdades. “Sejam essas desigualdades de gênero, de raça e de classe. A dimensão da classe, a luta do capital e trabalho, continua entrelaçada às outras duas. Para mudar isso, a gente precisa de uma estrutura produtiva que traga mais oportunidades para mulheres, pessoas negras, para outras regiões”, acrescentou.      

“Cada uma de nós carrega muita história. Quando a gente se conecta com a luta de tantas mulheres, vamos perceber a força imensa que nós temos, e ao mesmo tempo a negação por uma sociedade patriarcal e sexista desta mesma força. Mulher tem muita coragem”. Assim a deputada Erika Kokay iniciou sua participação. Ela trouxe ao debate a questão dos feminicídios: “Um país onde nós temos a cada seis horas a morte de uma mulher porque é mulher. Muitas vezes, os homens acham que a iniciativa do começo de uma relação tem que ser dele, e que o término de uma relação também ter que ser iniciativa dele. E muitas vezes não aceita quando o término da relação vem de uma mulher”.   

Para a deputada, é necessária a discussão de igualdade de direitos entre homens e mulheres. “Isso é fundamental para resolver as desigualdades sociais, é parte estruturante da construção de uma sociedade onde nós possamos mergulhar no marco civilizatório, onde nós saiamos da barbárie”, disse. “Nós podemos fazer deste país um lugar onde não haja nenhuma marca das lógicas sexistas e patriarcais nas nossas peles e cicatrizes da alma, pelas burcas e mordaças invisibilizadas, perenizadas e entranhadas no tecido social. Por isso, arranquemos todas as mordaças e todas as burcas e possamos dizer de forma coletiva: somos mulheres, carregamos muita coragem e vamos transformar esse país”.  

Confira a seguir a reportagem sobre a abertura do evento e, logo abaixo, a íntegra da abertura e do primeiro painel.

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