Possível substituição da mão de obra humana e equilíbrio na utilização da IA integram debate de conferência realizada no Ceará

A I Conferência Inteligência Artificial, Sindicatos e a Luta por Direitos, realizada no Ceará, trouxe, no segundo dia da programação, 16 de maio, o tema “Inteligência Artificial com soberania: riscos e benefícios para o Sul Global”. Os debatedores falaram sobre a importância do uso da Inteligência Artificial como auxílio ao trabalho humano e suas várias funcionalidades. A conferência foi realizada no auditório do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE), campus Fortaleza, com apoio de diversas entidades, dentre elas o Sindifisco Nacional.

As discussões foram conduzidas por José Vital, da equipe Teia Digital, e Ana Uchoa, pró-reitora de extensão do IFCE. A mesa de abertura contou com a presença de José Wally Menezes, reitor do IFCE, e Ivonísio Mosca, diretor do Sindicato dos Trabalhadores em Empresas de Processamento de Dados, Serviços de Informática e Similares do Estado do Ceará (SindPd). O debate teve a participação dos professores Tarcísio Pequeno, especialista em IA e filosofia; André Ferreira, do Sindicato dos Docentes das Universidades Federais do Estado do Ceará (ADUFC); e Igor Paim, do IFCE.  

A Inteligência Artificial é uma revolução que já começou. Nessa perspectiva, José Wally reforçou a necessidade de apropriação das mudanças que já estão acontecendo e daquelas que estão por vir. “Precisamos ter um alerta com a ética, as questões relacionadas com a humanidade e, logicamente, não poderemos barrar as evoluções científicas e tecnológicas”. Ele lembrou do uso da IA na substituição de professores em cursos de línguas estrangeiras e questionou como ficará o papel desses atores com o uso da tecnologia. 

“O SindPd reconhece que a IA apresenta um enorme potencial para melhorar a vida da humanidade em diversos aspectos, e precisamos ter cuidado para não demonizá-la, pois temos em nossa base uma série de trabalhadores que estão desenvolvendo sistemas de IA que estarão salvando vidas e o meio ambiente nos próximos anos. Assim como a máquina a vapor, a eletricidade e a internet, a IA não é uma tecnologia de propósito geral e está em pleno e constante desenvolvimento”, disse Ivonísio Mosca.  

Outro ponto destacado pelo especialista foi o controle e a regulação dessas tecnologias. “Permitindo experimentação, inovação e evolução contínua dos sistemas de IA e que mantenham o trabalho em todos os seus aspectos como garantia de sobrevivência do trabalhador. É crucial que o desenvolvimento e a utilização da IA sejam guiados por princípios éticos e responsáveis, garantindo que seus benefícios sejam revertidos a todos os seus trabalhadores por meio da colaboração ampla de toda sociedade e com a participação de todos”.  

Com larga experiência em Inteligência Artificial, o professor Tarcísio Pequeno criou, em 1992, o Laboratório de Inteligência Artificial (LIA), em Fortaleza. O especialista fez uma exposição histórica da sua experiência na área e destacou que, atualmente, a apropriação da IA pode afetar a classe mais vulnerável. “O problema não é IA, nem a tecnologia, mas quem se apropria dos benefícios, resultados e produtos da tecnologia. O problema é político, mais uma vez. Com a IA, as horas poupadas do ser humano será de capital. Trabalhos poupados para o capital não são hora de lazer para o funcionário, mas sim desemprego. Seria lazer se nos apropriássemos da IA, se ela estivesse em nossas mãos”, esclareceu.  

Para o professor André Ferreira, essa questão tem relação com o sindicalismo e, por isso, precisa ser discutida nos sindicatos. “Basta voltar à época da Revolução Industrial, com pessoas sendo substituídas por máquinas. Existe essa perspectiva de uma grande substituição de trabalhadores por máquinas, portanto, de uma tecnologia por capital”, disse.

Em sua análise, esse assunto precisa ser debatido nos sindicatos. “Certamente, uma série de atividades que o ser humano desenvolve, e que podem ser substituídas, também podem elevar o desemprego, com a substituição brutal da mão de obra humana por máquinas. A questão social tende a se elevar com essa perspectiva, e vai se agravar”, acrescentou.

Para ele, o caminho é a humanidade estar preparada para as contradições que essa tecnologia tende a gerar. “Isso passa por uma questão política de controle, saber onde ela pode me ser útil, onde passa a ser útil para a lucratividade das empresas, mas não necessariamente na humanização, não necessariamente será útil do ponto de vista ecológico e social. A gente precisa usar essa tecnologia até onde ela seja benéfica”.  

O equilíbrio no uso da Inteligência Artificial foi enfatizado por Igor Paim, pois há habilidades humanas que não podem ser substituídas por máquinas. “A IA sempre vai ser melhor que a gente em velocidade de processamento e poder de armazenamento, mas não tem ainda a criatividade humana. Ela está relacionada à biotecnologia, onde nossas vacinas serão feitas. Uma IA pode visualizar milhões de imagens e auxiliar em um diagnóstico, mas ela não sente, não ama. Vamos nos preocupar com o que realmente importa, com os direitos humanos e trabalhistas. Nunca uma máquina terá uma alma e amará, ela nunca vai fazer o que o ser humano tem de mais caro, que é o amor”.  

O evento continua nos dias 22 e 28 de maio e 4 de junho, sempre das 18h30 às 21h30, nas cidades de Redenção, Juazeiro do Norte e Sobral. O Sindifisco Nacional fará a transmissão de todos os debates pelo canal da entidade no YouTube. 

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