Chacina de Unaí: 20 anos depois, a impunidade continua e o Estado ainda sangra! 

Justiça. Esta foi a cobrança feita por Auditores-Fiscais do Trabalho durante o ato público promovido pelo Sindicato Nacional dos Auditores-Fiscais do Trabalho (Sinait), em frente ao Ministério do Trabalho e Emprego, em Brasília, nesta terça-feira (30). A manifestação marca os 20 anos do crime que ficou internacionalmente conhecido como Chacina de Unaí, ocorrida em 28 de janeiro de 2004. Os diretores do Sindifisco Nacional Auditora-Fiscal Nory Celeste de Sais Ferreira (Defesa Profissional) e Floriano de Sá Neto (Assuntos Parlamentares) reforçaram o pedido por justiça. 

Os Auditores-Fiscais do Trabalho Eratóstenes de Almeida Gonsalves, João Batista Soares Lage e Nelson José da Silva e o motorista Ailton Pereira de Oliveira foram vítimas de emboscada na região rural de Unaí (MG) e mortos a tiros ao realizarem uma fiscalização considerada operação de rotina. Eles já haviam sido ameaçados de morte pelo ex-prefeito de Unaí, o fazendeiro Antério Mânica, conhecido como “Rei do Feijão”, por identificarem condições análogas à escravidão em fazendas de sua propriedade e aplicado diversas multas. 

A investigação policial apontou a participação de nove pessoas no crime, entre mandantes, intermediários e executores. Depois de duas décadas, um mandante e um intermediário, embora tenham sido condenados, estão foragidos e, portanto, permanecem impunes. 

Norberto Mânica, poderoso produtor rural da região, e Hugo Alves Pimenta, empresário cerealista, foram condenados e recorreram a todas as instâncias possíveis para continuar em liberdade. No entanto, em setembro do ano passado, a 5ª Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ) determinou o cumprimento das penas de 65 e 31 anos, respectivamente. Os dois condenados estão foragidos. 

Apenas em 2023, Antério Mânica, que é irmão de Norberto e considerado o principal mandante do crime, foi definitivamente para a prisão, condenado a 99 anos e 11 meses de reclusão, após a anulação de um julgamento e diversos recursos. 

“Mais uma vez precisamos retornar ao Ministério do Trabalho, às autoridades, e cobrar que a prisão dos foragidos Norberto (Mânica) e Hugo (Alves Pimenta) seja feita o mais rápido possível, para aliviar a dor de toda a categoria e dos familiares dos nossos colegas. É imperativo que o Estado cumpra com o seu papel, puna esses bárbaros criminosos que cometeram essa atrocidade contra o Estado brasileiro, a Auditoria Fiscal do Trabalho e contra os nossos colegas”, discursou o presidente do Sinait, Auditor-Fiscal Bob Machado. 

“Vinte anos atrás foi cometido um crime brutal que tirou vidas valiosas do convívio da sociedade, da família e dos amigos. O Sindifisco Nacional vem aqui trazer as condolências sinceras aos familiares e aos amigos, e dizer que estamos juntos nessa luta pela valorização do trabalhador do serviço público, para que ele possa desempenhar suas funções com tranquilidade e que a sociedade compreenda efetivamente o papel primordial que nós desempenhamos na defesa dos interesses maiores da sociedade brasileira. Chama a atenção a demora em se fazer justiça, porque são pessoas poderosas”, afirmou Floriano Sá Neto. 

Nory Celeste fez uma conexão entre a Chacina de Unaí e o assassinato do Auditor-Fiscal da Receita Federal José Antônio Sevilha, também em função de sua atuação profissional. “É fundamental que tenhamos em mente que isso não pode acontecer. Não pode, porque a possibilidade de você exercer com tranquilidade o seu múnus, a sua obrigação, está relacionada a você poder existir, a você poder estar vivo. E quando alguém assassina e fica solto por 20 anos, a ideia que vai para a sociedade é que é possível alguém matar um agente público e fugir, ficar livre. Sabemos, pela luta que se enfrentou até o julgamento e a condenação do assassino do Sevilha, como é difícil o imenso sofrimento da família, dos colegas, do Estado. O Estado sangra! Enquanto esses assassinos estão impunes, o Estado está sangrando. E precisamos estar aqui, exatamente, para que ninguém esqueça e para que nunca mais aconteça”, pontuou. 

Saiba quem são todos os envolvidos: 

Antério Mânica, ex-prefeito de Unaí, conhecido como “Rei do Feijão”, acusado de ser o mandante da chacina. 

Norberto Mânica, irmão do ex-prefeito, também apontado como mandante dos assassinatos. 

Francisco Elder Pinheiro, acusado de contratar os executores. 

Hugo Alves Pimenta, empresário acusado de ser intermediário. 

José Alberto de Castro, empresário acusado de ser intermediário. 

Erinaldo de Vasconcelos Silva, executor. 

Rogério Alan Rocha Rios, executor. 

Willian Gomes Miranda, contratado para atuar como motorista dos executores. 

Humberto Ribeiro dos santos, contratado para apagar pistas dos assassinos. 

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